
A criação actual do Puro-Sangue Árabe

No princípio do século vinte, o cavalo manteve grande parte do prestígio que lhe vinha de gloriosas épocas anteriores, reforçado ainda pela expansão das corridas. O progresso da motorização dos transportes, do exército e da agricultura, e, mais tarde, a segunda guerra mundial (com o anacronismo dos ataques dos lanceiros polacos contra os tanques nazis), levaram a previsões que apontavam para o desaparecimento quase total do cavalo. Verificamos agora que essas suposições estavam erradas e que o reino do cavalo continua, graças à democratização e ao enorme desenvolvimento dos desportos equestres e particularmente das corridas.

No que respeita ao Árabe puro, menos rápido que um Puro Sangue Inglês e saltando menos que um cavalo de desporto, era de prever um futuro ainda mais funesto. Mas também aí as profecias se revelaram falsas, graças à sua aptidão para ser montado ou atrelado, à sua polivalência, aos raids em que é senhor, à moda dos “shows”, ao prazer que proporciona como animal de companhia, à sua beleza sem equivalente, a novas utilizações e até a alguns cavaleiros que mostraram que muitas vezes os Puro Sangue Árabes podiam competir e triunfar com as outras raças nas diferentes disciplinas hípicas. Isto para não falar da sua principal e insubstituível qualidade, a de melhorador das outras raças, que só por si justificaria o seu futuro.
Qual é então o panorama da criação actual do PSA no mundo ?

No Oriente, berço da raça, a recente revolução do petróleo alterou completamente os hábitos e tocou seriamente o PSA. Com raras excepções como a do Bahrein (em que verifiquei a existência das antigas linhas da península, com cavalos muito fortes, pequenos e de boa índole), o cavalo das grandes travessias do deserto e senhor da guerra tinha-se tornado raro, razão que levou os reis, os emires e os governantes a procurarem reconstituir um efectivo que quase tinha desaparecido, assim como as linhas nativas dispersas pelo mundo.
De todos os países do Oriente, o Egipto é um dos que, não sem dificuldades, melhor preservou a qualidade das suas linhas antigas, tão conhecidas pelas magníficas cabeças que produzem (Nazir, Habdan-Enzahi, Ghazal, etc.).

Na Jordânia, a família real não se poupa a esforços para reconstituir a excelente coudelaria do emir Abdallah, avô do rei Hussein, que tinha sido dispersa depois do seu assassinato.
Na Síria, a criação actual concentra-se nas zonas desérticas do Alep, Hama ou Damasco. Os animais são pequenos, mas de grande qualidade, e são utilizados nas corridas e nas diferentes disciplinas hípicas.
No Líbano, encontramos hoje uma criação muito influenciada pelos animais longilíneos e fortes da Tribo Anazé.
Na Turquia, a produção do Árabe desenvolve-se por intermédio das 3 Coudelarias Nacionais e de várias particulares, viradas essencialmente para as corridas.
No Iraque, o Estado protege as linhas antigas que evoluem nas planícies de Bagdade e Ramadi e também utiliza os animais em corridas.
No Irão, a reconstrução faz-se, em parte, aproveitando animais com origens da antiga coudelaria Bakhtiar, e ali encontramos bastantes animais fortes e de cor preta
Em África, dos três países do Magrebe, Marrocos é certamente aquele que maior esforço fez pelo Árabe. Actualmente possui coudelarias privadas como a do Príncipe Moulay Abdellah, coudelarias regionais (Meknés, El Jadida, Oujda e Marrakech) e as prestigiosas coudelarias de Douyet e de Sablons, propriedades de Sua Majestade o Rei. Fundada por S. M. Hassan II, a Coudelaria Real de Bouznika, a uns 50 quilómetros de Rabat, é um monumento paradisíaco construído para glorificar o Cavalo Árabe, sendo incontestavelmente a mais sumptuosa que no Mundo vi. A grande maioria das suas origens resulta de prestigiosas importações. Imperial Im Tarib, Hassan, Ansata Hajji Jamil, Shahh Asahm, são alguns dos principais padriadores desta coudelaria. A Tunísia, faz actualmente um grande esforço baseado num ambicioso programa de corridas.
No Continente Americano, os Estados Unidos constituem um caso particular do século vinte, pela amplitude e rapidez com que o Árabe se desenvolveu. Em 1893 são importados da Grã-bretanha animais Crabbet e em 1906 chegam a Boston vinte e sete reprodutores oriundos da Arábia. Nos anos trinta continuam as importações do Egipto, Polónia e Inglaterra. Em 1973 já estão inscritos no Arabian Horse Registry 100.000 Árabes e sete anos mais tarde 200.000 ! Fenomenal ! Evidentemente com um tal efectivo aparecem animais excepcionais, como é o caso de Witez II, Nabor (Naseem), Bask (Witraz), Excelsior (Aquinor), etc. E também surgem coudelarias de excepção como o Lasma Stud com o seu efectivo de 1.800 cabeças, entre os quais o já citado Bask, mas também Kilimandjaro e Khemosabi. É de notar que nos USA o Puro Sangue Árabe constitui um verdadeiro caso social e é utilizado em todos os desportos equestres e profissões a cavalo, além dos "shows". O Canadá também começou com importações de Crabbet e tem hoje uma excelente e numerosa criação de Árabes. No sul da América, e particularmente no Brasil, o Árabe também conhece dias de grande sucesso graças a importações de grande relevo.
A Austrália, ocupa o segundo lugar mundial quanto ao efectivo existente, atrás dos Estados Unidos. Toda a sua criação está profundamente marcada pelas origens inglesas e particularmente pela égua Shahzada.
Na Europa, a Espanha ocupa indiscutivelmente um lugar de relevo, não só pela qualidade das suas origens mas também pela funcionalidade de grande parte delas. Scanderich, importado do Oriente em 1908, tem uma influência enorme por intermédio de seus descendentes Congo e Barquillo (muito presente em linhas portuguesas). Por seu lado, o Duque de Verágua tinha importado de Inglaterra vários Crabbet, descendentes do "Cavalo do Século" o grande polaco Skowronek, entre os quais o excelente Razada, que terá grande influência não só em Espanha mas também noutros países e particularmente em Portugal. A Grã-Bretanha, deve ser o país que maior influência teve na criação do Árabe no mundo. Efectivamente, as origens egípcias e polacas dos animais de Crabbet Park, estão presentes em todos os continentes e o seu sangue corre em inúmeras grandes linhas mundiais. Os ingleses utilizam em larga escala o Árabe montado.
A Polónia, tem grande tradição no que respeita o PSA, que sempre desejou funcional. A partir de 1926 testou todos os seus produtos em corridas de longa distância, o que lhe permitiu manter uma qualidade invulgar. Nestas breves notas é impossível citar todos os Árabes polacos que se notabilizaram no mundo. Lembramos somente os nomes célebres de Skowronek, Enwer Bey, Trypolis, Miecznik, Offir, Witraz, Wielki Szlem, Kuheylan Haifi, Comet, etc., todos presentes em linhas de criadores portugueses.
A Alemanha, é hoje o maior produtor de Árabes na Europa, com origens que resultam de notáveis importações da Polónia, Egipto, Espanha, Hungria, etc. Os cavalos são utilizados em quase todos os desportos.
Em França, durante o Império o Árabe atingiu o seu apogeu, para começar a decair grandemente com a guerra. E depois, as várias importações foram orientadas para fabricar Anglo-árabes. Em 1965, quase não houve nascimentos de PSA, mas o interesse dos amadores aumentou rapidamente e hoje nascem mais de mil animais por ano. A França importa animais da Polónia, Egipto, Espanha, Portugal, etc. Os celebres Dénousté, Dahman (da tribo Chammar), Bango, Nedjari, Bad (avó de Comet), Bad Bedur (filho de Comet), Flipper, Dunixi e Blaise (estes 2 de mães portuguesas), são alguns dos reprodutores prestigiosos da criação francesa, orientada sobretudo para a funcionalidade. As corridas são frequentes.
A Rússia, antes da revolução tinha uma grande produção de Árabes, que está a reconstruir com a importação de animais ingleses, polacos, egípcios e franceses. A corrida é o principal objectivo daquela criação cavalar.
A Hungria, país de cavaleiros, mantém uma velha tradição pelo Árabe, muito utilizado também em atrelagem.
A Dinamarca, a Bélgica, os Países Baixos, a Suécia, a Áustria, a Suíça e a Itália são países que só mais recentemente iniciaram a criação do PSA, o que em nada lhes tira qualidade.
Portugal, será o tema desenvolvido no nosso artigo do próximo número da Equestre. Por isso limitamo-nos a dizer que as origens portuguesas reúnem sangues provenientes das mais célebres origens orientais, polacas, inglesas, espanholas e francesas. Também é de assinalar desde já que o Árabe português é certamente um dos mais funcionais do mundo.
Pelo que precede verificamos que a produção do Árabe se intensifica grandemente em todos os continentes e que a sua utilização varia de país para país, mas não esclareci devidamente que no decorrer das minhas viagens e estadias no estrangeiro, constatei, com espanto, que uma enorme parte dos criadores de Árabes procuravam seleccionar quase exclusivamente pelo critério da beleza, respondendo assim à moda do "show", que tem a primazia em muitos países.
Justificam-no pretendendo que "o tipo" é sinónimo de pureza racial e portanto de qualidade.
Querem um animal gracioso e pequeno, uma cabeça linda, uma cauda alta. Criam um cavalo exclusivamente de exposição. Quando o conseguem, dir-se-ia que estamos em presença de verdadeiras porcelanas e à primeira vista não podemos deixar de nos extasiar face àqueles « objectos de arte ».
Infelizmente, um curto exame mostra-nos que frequentemente o cavalo tem olhos grandes e bem negros, mas que os corvilhões são inutilizáveis; que tem um bonito chanfro bem côncavo, mas que as espáduas são lamentáveis; que tem umas belas narinas bem abertas, mas que a ligação do dorso é péssima; que está sabiamente barbeado e pintado, mas que, montado, não suportaria o mais pequeno trabalho.
Evidentemente, a apreciação exclusiva dos sinais estéticos distintivos da raça Árabe não é suficiente, pois não é possível desprezar as outras qualidades morfológicas e funcionais necessárias a qualquer cavalo, e serve unicamente para satisfazer um frutuoso comércio ligado ao “show”, em que a defesa e a preservação das fantásticas qualidades ancestrais do PSA me parecem ser a menor das preocupações.
Em verdade a moda dos "shows", que nada têm a ver com um tradicional e útil concurso de modelo e andamentos, trouxe ao mundo do Árabe uma nova espécie de comercio dirigido a um publico e a proprietários que geralmente nunca montaram ou montarão a cavalo, que não têm a mais pequena tradição hípica e que não conhecem as qualidades funcionais que devem ser exigidas a qualquer cavalo, escolhendo portanto unicamente através da visão estética. Procedem exactamente como eu faria se fosse comprar um papagaio: só o lado decorativo orientaria a minha aquisição dado que desconheço inteiramente quais as outras qualidades a exigir.
Mas, também encontrei os que se preocupam unicamente com o lado funcional, criando cavalos que não têm minimamente o "tipo da raça", não possuindo a mais pequena semelhança física com um PSA ao ponto de se confundirem com os animais de outras raças menos nobres. É evidente que se a cabeça de um cavalo Árabe se parecer com a de um Lusitano, deixamos de ter um PSA e por melhor que ele se mostre em acção não pode servir para manter as qualidades da raça.
Esta ultima atitude, ditada essencialmente pelo desejo de "fabricar" animais vencedores em corridas, é tão condenável como a precedente, pois também aqui não há o cuidado de preservar as excepcionais características da raça.
Como se depreende, o PSA exige a mais difícil das selecções cavalares pois tem de ser, simultaneamente, bom funcionalmente, perfeito morfologicamente, sem equivalente moralmente e esteticamente em acordo com o magnifico modelo oriental. Consegui-lo não é fácil, mas em nossa opinião deveria ser a principal preocupação de todos os responsáveis pela raça, de forma a não comprometer o maravilhoso equilíbrio entre a pureza, a funcionalidade e a beleza, que faz do PSA o animal único que ele é.
Em nosso modesto entender, um cavalo que não reúna estas qualidades deve ser eliminado como reprodutor de raça pura, para assim se poder manter a especificidade da mais extraordinária e completa das raças, aquela que é a melhoradora de todas as outras. Não esqueçamos que nenhuma raça actual saiu do anonimato antes do Árabe a melhorar, e que nos nossos dias cada vez é mais frequente e necessário « refrescar » os vários sangues com a pureza e excepcionalidade do Puro Sangue Árabe, certos do enorme aumento de qualidade que ele proporciona.
Da mesma maneira que não há vida sem Sol, também não há boas raças equinas sem Puro Sangue Árabe. É por isso que ele merece não só a nossa grande admiração mas também a nossa maior atenção para preservar o conjunto das suas fantásticas qualidades ancestrais.
- Manuel Heleno